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Revista Carta do Líbano traz entrevista com Roberto Duailibi
22/1/2015
Matéria faz parte do "Especial São Paulo : A presença libanesa na sociedade paulista" . Ana Estela Haddad e Carol Civita são os outros destaques da edição.

Um dos maiores publicitários do Brasil conta à Carta do Líbano um pouco da influência da cultura libanesa herdada dos pais. Nos fala da sua infância em Campo Grande, sua educação e sua vida profissional, marcada pela originalidade nos negócios. Aos 78 anos de idade, ele celebra a história de uma carreira brilhante e compartilhada com sua grande família.




O seu pai, Wadih Galeb Duailibi, libanês, e sua mãe, Cecília Fadul Duailibi, se conheceram no Brasil. Mas a trajetória de sua família no Brasil começa já com seu avô materno. Conte-nos como a sua família começa a ter os primeiros laços com o Brasil e por quê.

Meu avô materno, Nacib Fadul, pertencia a uma família de Baabda, que trabalhava na produção e comércio de seda. Nesse mercado, ele comerciava muito com a França e veio para o São Paulo, onde teve muito sucesso. Chegou a ser proprietário de toda a várzea do Glicério, que vendeu para retornar ao Líbano. Entre o final do século XIX e o início do século XX muitos primos e amigos começaram a vir para o Brasil e escreviam sobre o sucesso obtido, o que animava os demais familiares. Enquanto a situação do Líbano, como aliás todo o Oriente Médio e Europa, era instável, por aqui as oportunidades estavam abertas. Já meu pai nasceu em Zahlé em 1899, numa família de joalheiros e estudou Farmácia na em Paris, cidade que lhe deixou maravilhosas lembranças.

Em 1920, seu pai, com formação em farmácia em Paris, vem ao Brasil fundar a Coty, empresa francesa de fragrâncias. Como foi a mudança e onde ele se instalou primeiramente.

Meu pai instalou uma fábrica na Liberdade em São Paulo, onde se casou e teve um filho, Victor. Porteriormente mudou para o Rio, onde nasceu a segunda filha do casal, Lorice. Aí novamente mudaram para São Paulo, onde nasceu o Fauze. Os outros quatro filhos nasceram em Campo Grande, Mato Grosso.

Como seus pais se conheceram?
Meus pais se conheceram em São Paulo. A família da minha mãe também era de imigrantes, minha avó materna, Ada Vianello, era italiana e meu avô, Nacib Fadul, libanês. O Mediterrâneo, naquele periodo da História, era a região onde tudo acontecia. Vieram para o Brasil e meu avô ficou muito rico com o comércio da seda. Aqui nasceu minha mãe, Cecília. Depois voltaram para o Líbano, já com a filha. Minha mãe nasceu em São Paulo, mas foi criada em Baabda, onde nasceu a outra filha do casal, Ignês. Depois da morte de Nacib, voltaram para o Brasil. Nesse contexto, do início do século XX, é que meus pais se conheceram, já em São Paulo.

O senhor tem origem libanesa dos pais e e também influência italiana do lado da sua avó materna. Essas influências forjaram algo em sua personalidade? Quais características pessoais o senhor reconhece como “herança” dessas origens familiares?

Minha avó, Ada Vianello, de uma família tradicional vêneta. Bem, aquela região do Mediterrâneo, composta por parte da Grécia, Líbano, Egito, Leste da França, Itália, era uma região cultural e economicamente muito integrada. E o Líbano era parte disso tudo, eles viviam nesse universo. Então essa formação plural, as línguas, a valorização da arte, da leitura, era algo muito importante em casa, uma espécie de herança familiar. Essa curiosidade por viagens, por descobertas, também deve ser algo que vem de família. E pelo fato de viver em São Paulo, a influência italiana foi muito poderosa.

Após se casarem em São Paulo, seus pais foram para o Rio, voltaram para o São Paulo e depois para Mato Grosso. Eles tiveram sete filhos e o senhor é o quinto e nasceu em Campo Grande. Como foi sua infância lá?
Foi uma infância muito boa. Nasci em Campo Grande, uma cidade que ficava a três dias de trem de São Paulo. Difícil deve ter sido para a minha mãe, numa cidade que ainda estava surgindo, sem infraestrutura, ela educar sete crianças não deve ter sido fácil. Meus pais tinham loja em Campo Grande, então foi meu primeiro contato com comércio.

Quais suas principais lembranças?
Lembranças familiares, em especial da minha mãe, zelando por todos nós. Apesar do calor e da poeira da cidade ela fazia questão de nos manter sempre bem vestidos, com boa aparência. Lembro também que a leitura era muito valorizada, desde muito jovens aprendíamos a recitar poemas, ler jornais, era um hábito de todos, desde muito jovens. Estudávamos todos no Colégio Dom Bosco, dos Padres Salesianos.

Quais eram as histórias que o senhor ouvia da terra natal de seus pais, o Líbano, quando criança?
Eles contavam sobre as belezas naturais do Líbano, sobre a cidade de Zahle, sobre os familiares que viviam lá, a importância da história, os lugares bíblicos, tinham muito orgulho de sua terra de origem, mas também se sentiam acolhidos no Brasil, se sentiam gratos pelas oportunidades que tinham aqui.


O senhor é mentor do Centro de Estudos FamilyD, que realiza uma pesquisa mapeando todos os membros da família D, à qual o senhor pertence. Como surgiu essa ideia e quantos membros essa pesquisa já levantou em em quantos países? Esse material vai virar livro?

Essa ideia surgiu pela minha curiosidade em conhecer os parentes. Uma vez fui viajar e encontrei uma pessoa com o mesmo sobrenome, mas eu não conhecia e fiquei curioso, queria saber se éramos da mesma família. Decidi aplicar os conhecimentos das teorias de rede, que aprendi que na escola de Sociologia e Política. Muito antes da conceituação de redes sociais, já conseguíamos, usando a teoria, recuperar a lista dos passageiros do voo inaugural da Vasp para um anúncio. Na ocasião, pensei, se a partir de alguns nomes que indicavam as pessoas que eles conheciam, conseguimos refazer a lista, poderíamos tentar o mesmo com a família. Então contratei uma jornalista e uma historiadora, elaboramos e enviamos questionários e pedíamos que nos indicassem os parentes que eles conheciam. Recebemos diversas respostas e muitos começaram a enviar também fotos, documentos e outros arquivos da família. Assim começamos a compor nosso acervo, que eu fui ampliando aos poucos em minhas viagens, comprando peças em livrarias, antiquários e leilões. Com o tempo, comprei um apartamento exclusivamente para a coleção, contratei uma bibliotecária para catalogar todo o material e montamos um centro de estudos, com uma biblioteca especializada em imigração libanesa e orientalismo. Além dos livros, temos revistas, mapas, esculturas, quadros. Tudo relativo ao universo árabe ou orientalista. Inicialmente pensamos em publicar um livro, mas hoje essa experiência é melhor pela internet, porque temos informações novas diariamente. Em nosso site, temos mais de 1500 parentes cadastrados e cada um atualiza sua árvore, com os novos membros do seu ramo da família. E recebemos novas imagens, entrevistas. Publicamos também conteúdo relativo à história e geografia do Líbano e tentamos mostrar o país que existe além dos noticiários de guerra, suas belezas, sua cultura, suas peculiaridades. E temos sido muito bem-sucedidos nisso, atendemos pelo site não apenas pessoas da família, mas pesquisadores do mundo todo. É uma experiência muito rica e sempre em construção, em desenvolvimento permanente.

Em Mato Grosso, seu pai teve loja de tecidos e roupas, foi representante de empresas de São Paulo e também trabalhou no garimpo. Como foram essas experiências?
Meu pai tinha as características do típico imigrante libanês: ele vem ao Brasil já com uma formação, mas não tem receio de buscar outras oportunidades. Os libaneses tradicionalmente são excelentes comerciantes, desde o tempo dos fenícios. E os que imigraram já vinham com espírito de desbravadores, de ir atrás das oportunidades, buscar espaços, sempre com dignidade. Ele não tinha medo do trabalho e trabalhou muito, mas conseguiu nos dar uma excelente educação, que era sua meta.

O senhor disse em uma entrevista que crescer na loja do seu pai no Mato Grosso, de certa maneira, o levou à profissão. De que forma? O que o senhor aprendeu nesse período que mais tarde usou como publicitário?
Crescer num ambiente de comércio é um aprendizado. Você observa como acontecem as relações de consumo, de desejo, os argumentos de venda, vitrines, promoções, enfim, é uma grande escola de marketing. Entretanto, acho que as lições mais importantes e que ainda sigo são o respeito ao cliente, o bom gosto na hora de anunciar e o compromisso com a verdade. Não importa o que ele vai buscar no seu negócio, ele tem que ver coisas bonitas, modelos que despertem seu interesse, e tem que confiar em quem está vendendo, para estabelecer uma relação duradoura, ele tem que saber que ali não será enganado. Isso é algo que sigo até hoje

Quando o senhor tinha 12 anos, em 1948, a sua família volta para São Paulo após a morte do seu irmão Fauze, então com 18 anos por causa de uma intoxicação alimentar. Vocês vão morar na Vila Mariana, onde onde havia muitas famílias libanesas. Como foi essa época? Qual foi sua impressão de São Paulo?

Foi uma grande tragédia para a família. Uma perda que nos abalou profundamente, em especial minha mãe. Foi bastante doloroso, mas estar em São Paulo, por outro lado, era uma experiência fantástica. Uma cidade muito maior que Campo Grande, com um comércio já estabelecido, teatros, escolas, um universo de oportunidades.São Paulo sempre uma cidade fascinante. Naquela época a gente ia ao centro de bonde, a cidade já tinha vários edifícios, livrarias, lojas, uma movimentação intensa. Antes de nos mudarmos para cá, já vínhamos frequentemente e era sempre incrível.

Como foi sua vida de estudante em Campo Grande? E em São Paulo?
Em Campo Grande estudei no Colégio Dom Bosco, de Padres Salesianos, onde aprendíamos com rígida disciplina. Já em São Paulo estudei na Escola Benjamin Constant, antiga escola alemã na Vila Mariana e depois no Colégio Bandeirantes, que sempre foi das melhores escolas de São Paulo. Em Campo Grande tive contato com muitos idiomas. Eu cresci ouvindo o árabe, o francês, o português, o italiano, o guarani que eu falava quando era criança, por causa das babás e o espanhol. Era muito bom em oratória, porque meu pai exigia, era algo que fazíamos constantemente em casa, discurso nos aniversários, em celebrações. E líamos muito, até o que era proibido na escola, como histórias em quadrinhos. Meus pais sempre estimularam muito a leitura e a escolaridade. Para os imigrantes, os filhos tinham que ter um diploma. Era uma exigência muito grande numa época em que existiam pouquíssimas universidades no Brasil, por isso quase todos saiam para estudar em São Paulo, no Rio de Janeiro ou na Europa.

O senhor disse em uma entrevista que tinha planos de cursar medicina, fez teatro no colégio e aos 16 anos já trabalhava no Banco de Boston na área de cobrança. Como a propaganda passou a fazer parte da sua vida? Como chegou a sua profissão de hoje.
Eu trabalhava no Banco de Boston no período da tarde, enquanto estudava de manhã no Colégio Bandeirantes. Mas tinha absoluta certeza que aquele trabalho burocrático não era o que eu queria para a minha vida. Meu pai era farmacêutico e comerciante, meu irmão estudou química, eu me preparava para seguir essa tendência e cursar medicina, mas já lia revistas de propaganda, trabalhava num jornal de bairro e comecei a me interessar por comunicação. Um dia vi um anúncio para um emprego na Colgate-Palmolive, que ficava bem perto da minha casa. Decidi me candidatar à vaga e fui aceito. Nunca mais saí da área e a propaganda continua me encantando até hoje.

Mas o senhor começou muito cedo a ter um envolvimento político, aos 16 anos, desenhando quadrinhos para substituir os quadrinhos americanos. Como foi esse envolvimento?

Foi um envolvimento de estudante. Sempre tive muita curiosidade, participei dos grupos de teatro na escola, dos movimentos políticos, sociais que surgiam. Na época, nossa proposta era substituir os quadrinhos americanos por quadrinhos brasileiros, para que se criasse um espaço para o talento nacional. Mas nunca fui, em essência, um desenhista, estava ali mais pela causa do que para desenhar. Também trabalhei no jornal da Vila Mariana, mas tudo isso antes de entrar na Colgate-Palmolive. Mas foram grandes escolas da vida.

Com o emprego na Colgate-Palmolive foi o fator crucial para o senhor desistir da medicina de vez? Quando o senhor percebeu que tinha finalmente encontrado o que queria ser como profissional?

Foi, assim como o ingresso na Escola Superior de Propaganda (atual ESPM) em 1953. A Escola era ligada ao Museu de Arte de São Paulo, na rua Sete de Abril, um universo completamente fascinante, com excelentes professores. Ali eu tive certeza que estava no lugar certo, convivendo com arte e grandes profissionais, vivendo a comunicação no trabalho e na escola.

Quantos anos de trabalho o senhor tem atualmente?
Se considerarmos meu primeiro trabalho oficial, na Colgate-Palmolive, são mais de 60 anos de experiência em comunicação

O senhor diz em uma entrevista que uma das coisas principais da sua profissão foi uma influência de sua formação socialista, de utilizar a propaganda como elemento revolucionário através do consumo. O senhor pode explicar melhor esse pensamento?
A propaganda nos fez conhecer e usar produtos que as pessoas não usavam. Criamos hábitos, alguns até de higiene e saúde, como escovar os dentes, usar preservativo, protetor solar. Primeiro você descobre que esses produtos existem e então passa a querer consumi-los. A gente também ensinou as pessoas a terem acesso à informação, conhecerem seus direitos. Tudo isso foi uma revolução, mas uma revolução sem sangue, uma revolução a partir do consumo.

O senhor quem deu a ideia da criação de um festival de propaganda social pelos publicitários cubanos. O senhor costumava trabalhar com propaganda social? Quais foram os principais trabalhos?
A Souza Cruz era nosso Cliente e tinha fábrica em Cuba. Por isso estive várias vezes naquele país para palestras e acabei sugerindo o festival, que se tornou um grande sucesso. Na primeira edição, o festival recebeu 1.800 peças. No segundo ano, já foram quase quatro mil peças do mundo inteiro e se tornou um grande festival, um evento turístico importante para Cuba. Na história da DPZ, fizemos muita propaganda social, sempre nos associamos a causas que consideramos importantes, fazemos muito trabalho para associações e entendemos que esse é um papel importante da agência, fazer bons anúncios também para quem não pode pagar e tem uma mensagem importante para divulgar. SOS Mata Atlântica, campanhas de saúde, Itaci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil) e outras campanhas que nos enchem de satisfação.

Qual o trabalho que mais o orgulhou na carreira?
Todos. É impressionante olhar retrospectivamente esses 60 anos e ver que todo trabalho foi realizado com fidelidade pelos quatro compromissos que sempre cultivamos: o compromisso com a Verdade, com a Originalidade, com o Bom Gosto e com a Moral nos negócios.

Qual foi o seu maior arrependimento na profissão?
Felizmente, por enquanto, nenhum.

Além da revolução tecnológica, o que mudou na publicidade e propaganda nesses anos de profissão?
A comunicação é um universo em constante movimento. Se as relações de consumo mudam, as formas de anunciar também e vice-versa. Ví o desenvolvimento dos jornais e revistas no Brasil, além da expansão do rádio; ví o nascimento da televisão e sua consolidação. Esse sempre foi o ambiente em que vivi, o da produção de programas, criação de conteúdos, convivência com artistas. Claro que a internet revolucionou a propaganda, a maneira como as pessoas tem acesso à informação, como veem vídeos, como interagem com as marcas. No universo das agências, a internacionalização talvez seja a maior mudança. As grandes agências tiveram que se associar a grupos multinacionais, mas a criatividade brasileira ainda é um fator muito importante. Independentemente de qual o canal utilizado, as marcas precisam sempre de inteligência e inovação para serem lembradas pelo cliente, para ter um diferencial, para conquistar o público cada vez mais exigente. Então sempre haverá espaço para o bom profissional de propaganda e marketing.

Quais os prêmios o senhor recebeu na profissão?
Já fui eleito Publicitário do Ano pelo prêmio Colunistas, recentemente fui reeleito o publicitário mais confiável do Brasil, junto com o Nizan Guanaes, mas acho que os prêmios que eu recebo são o reconhecimento de clientes que estão conosco há mais de 40 anos ou aqueles que nos escolhem agora e confiam em nós para gerenciar sua marca. É uma honra e uma responsabilidade imensas.

A sua agência, a DPZ, foi criada com base em quatro princípios: verdade, originalidade, bom gosto e moral nos negócios. Essa é a fórmula de sucesso para a empresa que está há mais de 40 anos no mercado?
Sem dúvida, são valores atemporais e que devem ser praticados todos os dias. Temos muito orgulho de, em todo esse tempo, nunca termos nos envolvido em escândalos de propina ou corrupção. Somos sempre lembrados positivamente, a agência tem uma história da qual muito nos orgulhamos, uma história de construção de marcas, de anúncios memoráveis, fizemos escola na propaganda brasileira e nos orgulhamos por seguirmos os mesmos princípios até hoje. Colaboramos para dar dignidade à profissão.

O senhor é autor de diversos livros, entre eles “Cartas a um jovem publicitário”, publicado em 2005. Hoje, quais são os principais conselhos para quem está começando na profissão?
É uma profissão que exige muito trabalho e dedicação, mas meu principal conselho é para que os jovens leiam mais. Leiam clássicos, autores contemporâneos, jornais, revistas, biografias dos grandes publicitários. Em época de textos curtos, as pessoas parecem estar com preguiça de ler.E escrevem muito mal. Todo bom redator precisa ser um excelente leitor. Leia muito, trabalhe muito e exercite sua criatividade diariamente, em tudo o que fizer.




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