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Líbano-Brasil
A Poesia Árabe no Brasil

Quando o emir druso libanês Fakredin subiu ao poder, decidiu imediatamente estabelecer contatos entre Roma e o Oriente. Por causa disso, surgiu, em Roma, o Colégio Maronita, onde iriam se formar seminaristas libaneses, sírios e palestinos. Foi assim que as ideias de pensadores cristãos como Savonarola, Roger Bacon e Campanella, entre outros, foram introduzidas no mundo árabe.

Esse contato com o Ocidente só foi possível graças à forte personalidade de Fakredin, que obrigou os turcos a lhe dar uma relativa autonomia, reduzida ao setor de Beirute e arredores. O fato de Fakredin ser um druso, isto é, um muçulmano não ortodoxo, levou-o a se apoiar no exterior para escapar do domínio turco.

É nesse círculo de influência ocidental que surge D. Germanos Ferhat (1670-1732), arcebispo maronita de Alepo, considerado o precursor do Renascimento árabe moderno.

Nessa época, a língua árabe perdia cada vez mais terreno para o turco. D. Ferhat começou redigindo o resumo de um dos mais antigos dicionários árabes conhecidos, enriquecendo-o com termos árabe ligados à liturgia cristã. Esse trabalho colocou a obra ao alcance dos contemporâneos. Redigiu, também, uma pequena gramática que se tornou básica para o ensino no mundo árabe.

Endividado com a Europa, o Império Otomano, já nesta época conhecido como “o homem doente da Europa”, fingia indiferença ante esse esboço de Renascimento fora de seu controle.

Se o Renascimento começou graças a um emir druso e aos maronitas, os conflitos religiosos que ocorreram no Líbano em 1860 opuseram maronitas e drusos.

Sobre o autor:
Slimaine Zeghidour nasceu em Jijel, no nordeste da Argélia. Pintor, ilustrador, jornalista e escritor, estudou árabe e francês em Argel. Foi membro fundador da primeira revista em quadrinhos do mundo árabe, a M’Qidech. Desde 1978 trabalha para a televisão francesa, tendo emigrado para Paris em 1974 em virtude de uma exposição que ali realizaria. Em 1981, realizou para a UNESCO um estudo sobre o tema “A mútua influência entre as literaturas árabe e latino-americana contemporâneas”. Em 1982, publica uma antologia da poesia árabe moderna.



O Renascimento e a Emigração
Os conflitos de 1860, no Líbano, terminaram com os massacres organizados pelos turcos de muçulmanos sunitas contra alauítas, católicos contra ortodoxos etc...

Esses acontecimentos levaram os intelectuais convertidos ao laicismo e adeptos da Revolução Francesa a escolher entre a clandestinidade ou o exílio no Egito, onde existia uma certa autonomia interna e onde a expedição de Bonaparte (1798) influenciara o florescimento da vida intelectual. Foi assim que o Egito recebeu vários intelectuais e suas famílias, fugidos da Síria e do Líbano.

Esses exilados criarão, no Egito, os primeiros jornais árabes como o Al Ahram (1875), que é o maior jornal árabe até hoje.

Com a influência de diversas ideologias europeias, surgem entre os árabes diferentes correntes literárias e movimentos políticos. Começou, dessa forma, o Renascimento árabe, que se mostrou um forte adversário do Império Otomano e da Europa.

A França enviou missões jesuíticas, os russos, missões ortodoxas, e os ingleses, missões protestantes. Como a assistência oferecida só era acessível aos fiéis de sua religião, os árabes católicos e os muçulmanos converteram-se, entre outros, ao protestantismo para poder beneficiar-se das “obras” missionárias. Essa foi uma das maneiras que a Europa usou para não perder o controle no Oriente, pois, no dizer dos franceses, “é preciso afrancesar os maronitas”.

Também o Egito revelou-se um exílio frágil, quando a repressão se abateu sobre o país.

Começava a emigração.

Navios ingleses transportavam, gratuitamente, famílias para a Itália. A partir daí, já existia um circuito de emigração para a América do Sul.

Não se pode precisar exatamente as datas e as condições dos primeiros emigrantes árabes para o Brasil, mas é possível avaliar que a primeira leva de emigrantes foi contemporânea aos distúrbios de 1860. Essa hipótese é confirmada pelo fato de que o primeiro escritor brasileiro de origem árabe nasceu em 1861. Trata-se de Manuel Said Ali que morreu em 1935.

Na década de 1880, franceses e ingleses já ocupavam o Oriente Médio contando com a passividade do poder turco. O movimento do Renascimento da poesia e da literatura árabe, cada vez mais minado por lutas internas entre múltiplas correntes, encontrava-se ameaçado tanto pelos turcos como pelas potências europeias.

O contato com alguns dos emigrados no Brasil aparece como saída para os intelectuais que procuram um exílio. Todos sentem a necessidade de sair, provisoriamente, do ambiente tumultuado pela ocupação estrangeira.

Os primeiros imigrantes árabes no Brasil se instalaram nas ruas da Alfândega e do Ouvidor no Rio de Janeiro. Eles vieram para a América, assim como foram para outros continentes, por motivações políticas e tinham por objetivo juntar fortuna e voltar ao país de origem para viver melhor.

No país escolhido, os árabes enfrentavam a barreira linguística e cultural. Por estas serem tão diferentes das dos outros imigrantes, algumas vezes eles eram alvos de preconceitos.

Toda a comunidade transplantada sente necessidade de preservar seu lugar de origem e manter os laços entre seus diferentes membros. Os clubes e a imprensa são instrumentos privilegiados e, com esse objetivo, todas as comunidades tiveram sua imprensa no Brasil.

No caso da imprensa árabe, ela atendia, também, a outras finalidades, pois que representava o prolongamento do Renascimento árabe, o qual tinha por objetivo libertar a pátria natal e promover um projeto de civilização. Para isso, tinham que lutar contra as dores do exílio, o desencorajamento devido à distância, a dificuldade de divulgar a causa árabe no Ocidente e de superar as lutas internas, entre outras coisas.

Uma das sequelas deixadas pela dominação otomana foi a estrutura feudal baseada nas referências familiares do local de origem.

Outro exemplo de referência familiar foram os primeiros clubes criados no Brasil, que tinham conotações locais: Clube Zahlé, Clube Homs, Clube Marjayun, nomes de aldeias sírio-libanesas que recebiam pessoas oriundas dessas regiões.

Antes, porém, de conseguir abrir clubes e fundar jornais, esses imigrantes tiveram que desempenhar outros ofícios. Dentre esses trabalhos, há um ao qual eles se entregaram e sob cujo nome são conhecidos no mundo árabe: Ahl Al Kacha (as pessoas da caixa). É o nosso caixeiro viajante. E invariavelmente eram chamados “turcos” por portarem passaporte turco. Pejorativamente, os árabes ficaram conhecidos como “turco da prestação”.

Depois de muitos esforços, apareceu no Rio de Janeiro o primeiro jornal árabe no Brasil: Al Nakib (17/01/1896), por iniciativa de Naum Labaki, auxiliado por Assad Khaled.

Entre 1890 e 1940, surgiu um número significativo de jornais, de revistas e de periódicos árabes no Brasil.

O movimento da imprensa iria estender-se por todo o território brasileiro.

Em Manaus, sai o jornal Al Siham (04/jan/1912). Em Porto Alegre, aparece o Al Fawaid (1909). Em Belo Horizonte, aparece o Al Sawab (1900). Em Campinas (interior de São Paulo), o Al Fiha (1894 ou 1895), que talvez tenha sido o primeiro jornal árabe do Brasil. Em Santos (litoral de São Paulo), é criado o Al Barazil (1896). Em Campos (Rio de Janeiro), o Al Fajr (1911). Em Salto Oriental, o Umnia Al Arab (1913). Em Niterói (estado do Rio de Janeiro), o AL Kharbar em 1921. E muitos outros.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro proibiu, temporariamente, a publicação de tudo que não fosse em língua brasileira.

Por esse motivo, a revista Al Usba, fundada pelo libanês Michel Maluf e distribuída em toda a América e também no mundo árabe, deixou de circular no referido período. Depois da guerra, continuou sua publicação até 1953, data do último número.

Na década de 1940, as lutas armadas contra os franceses na Síria e no Líbano atingiram um estágio mortífero. Na época, as associações de todas as comunidades árabes da América e do Brasil enviaram medicamentos, farinha e óleo aos necessitados desses países.

Nessa mesma década, a emigração estabilizou-se, na medida em que os pioneiros envelheciam e seus filhos tornavam-se brasileiros. É a época, também, das lutas dos países árabes pela independência. Paralelamente, a literatura emigrada começa a entrar em declínio.
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