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Zahle nos trópicos
15/8/2016
Confira artigo do publicitário Roberto Duailibi, membro da Academia Paulista de Letras, sobre Campo Grande, a importância da comunidade libanesa e as lembranças de sua infância.

Campo Grande é uma cidade com uma vigorosa comunidade libanesa. Hoje compõe-na imigrantes de todas as regiões do País dos Cedros, e, claro, de todos os países do Oriente Médio. Mas a Campo Grande na qual nasci e onde vivi até 1948, era fundamentalmente uma extensão americana de Zahle. E quando se observam os nomes dos imigrantes e de suas esposas, vê-se como havia uma relação sanguínea entre todos eles, o que justificava que todos se chamassem de “primos” uns aos outros.
Skaf, Maksoud, Zahran, Duailibi, Tabet, Saad, Nahas, Trad, Calarge, todos vinham da região do Vale do Bekaa, e sua imigração começou no fim dos anos 1800, no que se poderia chamar de uma segunda onda da diáspora libanesa. Sua inserção nessa região do mapa do Brasil acompanhou a construção inicial das estradas de ferro, e foi uma extensão da primeira onda que se espalhou pelo Norte, no caminho dos rios, pelo Nordeste, principalmente Bahia, pelo Sudeste, com foco na capital de São Paulo e no interior, seguindo as estradas de ferro Sorocabana e Noroeste do Brasil, e pelo Sul, com foco principal em Porto Alegre e as prósperas cidades do interior sul-riograndense. Campo Grande era uma extensão de Bauru, embora o preconceito contra São Paulo, estimulado pelo getulismo, nos fizesse olhar mais para o Rio de Janeiro.
Se hoje reclamamos do tempo perdido em aeroportos, posso imaginar como seria viajar por nossas estreitas estradas de terra nos anos 1910, quando muitas famílias começaram a se estabelecer em Mato Grosso. A jornada era longa e sofrida, o calor insuportável, os mosquitos impiedosos, mas o caminho era indicado pela esperança. Não havia nenhum heroísmo na entrada, mas apenas a busca pela sobrevivência e segurança da família, na fuga do horror imposto pelo governo turco.
Com a pouca mercadoria que traziam para vender, a começar do produto mais tecnológico da época, que eram as agulhas de aço, alguns metros de tecidos, botões, e uma ousadia sem fim, os libaneses foram fincando raízes.
Na rua 14 de Julho, as lojas principais pertenciam quase todas a famílias vindas do Bekaa. Reuniam-se, no fim do dia, para discutir os negócios e a política do Oriente, naqueles anos fundamentais da independência do Líbano. Na casa de meus pais, que tinham um enorme receptor de rádio, abraçavam o aparelho para poder ouvir melhor as emissões em ondas curtas, que chegavam até ali tênues e longínquas. Riam de seu próprio sotaque, da fama que tinham de falar alto e grosso, de acharem que o rio Bardauni era maior que o Amazonas.
Contavam-se histórias dos que se atreviam a ir mais além, dos que ficavam, dos que desapareciam, dos que voltavam mais ricos ou mais pobres.
Comentava-se o encantamento que sentiu Getulio Vargas quando visitou Campo Grande para conhecer os trigêmeos. Falava-se sobre o mistério que era o Pantanal, com seus bandos de assaltantes e suas terras devolutas. Desejava-se a organização que tinham os funcionários do Banco do Brasil. Festejava-se o Sete de Setembro com desfile de todas as escolas e a apresentação das bicicletas. Aguardavam-se as matinês do Rádio Clube e a inauguração de suas piscinas, provavelmente as primeiras em toda a região. Sonhava-se com a riqueza dos garimpos. Tio José, em sua loja “A Camponeza”, tinha um grande escafandro, cujo capacete me encantava. Morria-se cedo: com 55 ou 60 anos já se era velho. Os filhos eram tudo em suas vidas. A autoridade das mães era total. Colhíamos mangas e caçávamos passarinhos. Odiávamos Cuiabá e já se falava na criação de um novo Estado. Ouvíamos os mais velhos falando árabe e tudo o que sabíamos dessa língua era contar até dez, dizer os palavrões e os nomes das comidas. Ouvíamos a PRI-7.
Por algum tempo minha família ganhou importância porque a aeromoça da VASP, que efetuou o primeiro vôo para Campo Grande, era nossa conhecida, pois morava na rua Major Maragliano, onde morava nossa avó. Passeávamos com ela pela cidade como um troféu, atraindo todas as atenções.
E conviviámos com os muitos militares do Exército e depois da Aeronáutica, cuja presença na cidade representou o fator crucial para o desenvolvimento econômico da região.
O historiador Paulo Setúbal dizia que a formação do Brasil, como o conhecíamos até então, dependera de três fatores o Estado, a Igreja e o Exército. A partir do fim do século 19 e do começo do século 20, um quarto fator apareceu, o comércio Penetrando pelo interior do Brasil. E, nele, a figura do imigrante libanês, andando a pé ou montado num burrico, enfrentando o calor, a poeira, os perigos e criando suas famílias legitimamente brasileiras, tão bem representadas hoje em Campo Grande.


Roberto Duailibi, publicitário, membro da Academia Paulista de Letras




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